A primeira impressão que fica durante a projeção de História de um Casamento pode ser, dependendo de nossa formação e história de vida: como advogados são sacanas! Depois, calibramos melhor a ideia e percebemos que eles são o que são, e entre um casal, se existe uma separação amigável, advogados não deveriam se meter, nem deveriam ser chamados. Finalmente, a questão: até que ponto uma infidelidade frequente, mesmo que isto seja comum na classe artística, cria mágoas que só podem ser resolvidas com o auxílio de advogados? Pior, com advogados que jogam sujo.

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A infidelidade de Charlie é atenuada pelo comentário, feito por ele, mas não contestado por Nicole, de que ela não transava com ele há um ano. Mas de certo modo é um descuido fazer com que, no balanço, a história penda para o ponto de vista dele. Teria algo a ver com a relação dele com Greta Gerwig? Baumbach diz sempre que não. Mas a semelhança com o que conhecemos do casal permite que imaginemos algo como um acerto de contas. Ela era a principal atriz dos filmes dele, mas agora também dirige filmes (Lady Bird, o primeiro solo dela, é da fato melhor que qualquer filme dele; o segundo, Adoráveis Mulheres, vem aí; há um outro, Nights and Weekends, de 2008, dirigido com Joe Swanberg).

Noah Baumbach revela maturidade ao fazer com que as demonizações que fazemos de Nicole (Scarlet Johansson) e Charlie (Adam Driver) são apenas temporárias, e no fundo o que eles queriam era terminar o processo o mais rápido possível e sem maiores traumas (porque sair com traumas, a certa altura, parece impossível).

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Dentro dessa experiência bergmaniana, com toques de Woody Allen (via Ingmar Bergman, obviamente) e Robert Altman, é fundamental o trabalho dos três advogados que passam pelo filme, todos sublimes em seus papéis: Alan Alda interpreta Bert Spitz, advogado humanista e pouco interesseiro, que acredita nos clientes como humanos; Laura Dern, como Nora Fanshaw, uma espécie de craque na advocacia, que utiliza com gênio todas as artimanhas para que a esposa ganhe o máximo na separação; e Ray Liotta como o cínico e sujo Jay Marotta, único capaz de vencer a advogada de Nicole porque joga mais sujo que ela.

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O mérito maior de Baumbach, neste longa, é o de se livrar rapidamente da comparação com o Bergman de Cenas de um Casamento (longe de ser um dos melhores de Bergman, aliás), mesmo que para isso precise (ou não consiga evitar) salientar o aspecto mimado dos dois querelantes. Tanto Nicole, que quer porque quer morar em Los Angeles, quanto Charlie, que não consegue viver longe de sua Nova York descolada, parecem incapazes de ceder, ainda que, pelo que soubemos, ela cedeu mais durante o casamento.

Aí está também a limitação deste História de um Casamento. Apesar de termos grandes atores em interpretações bem dignas, os personagens nunca chegam a convencer realmente, porque não conseguem ganhar totalmente nossa simpatia (Allen trabalha com burgueses envolvidos com arte também, mas seus personagens quase sempre são convincentes). Nem mesmo o filho Henry consegue isso. A certa altura, ficamos torcendo pelas baixarias dos advogados, ou para que o aspecto Guerra dos Roses, o ótimo filme de Danny De Vito, ganhe mais espaço na narrativa, o que jamais acontece de fato.

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Se este é um dos dois filmes de real interesse do diretor (o outro é Mistress America), isso se deve em grande parte ao carisma dos protagonistas e ao modo feijão com arroz utilizado na direção. Ele sabia que era melhor deixar os atores brilharem e atrapalhar o menos possível. Mas às vezes falta um pouco de densidade, efeito colateral indesejado nesse tipo de opção.

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